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Carlos Pinto Leite

capitaogancho@gmail.com

A Tempestade

«Os mares levantam-se revoltos, ó Senhor! Os oceanos rugem na violência das suas vagas. Mas o Senhor, lá nas alturas, é mais poderoso do que o ruído de ondas gigantes, do que um oceano agitado por um furacão.» (‭‭Salmos‬ ‭93:3-4‬ ‭OL‬‬)


O vento assobiava furioso, cortando-me os ouvidos e a respiração. Gigantescas, as ondas elevavam-se inimagináveis metros acima dos meus olhos para se estatelarem com estrondo quase em cima do meu barco.

- “Fica quieta!” – ordenou-me o velho marinheiro.

- “Como posso ficar quieta?” – gritei-lhe, tentando sobrepor-me à ira do vento. “Este barco parece uma casquinha de noz, sacudido de uma lado para o outro, e com estas ondas afundamo-nos não tarda nada!!”

- “Fica quieta!” – ordenou-me novamente o velho marinheiro.

Fulminei-o com um olhar indignado pela resposta e, lançando mão de todos os objectos ao meu alcance, comecei a lançá-los borda fora, na tentativa de evitar o naufrágio iminente.

O rosto crispado pelo sol e pelo sal do marinheiro surgiu, resoluto, à minha frente e, colocou as suas mãos sobre as minhas.

- “Aquieta-te”! – instou-me. Sacudi-lhe as mãos.

- “É só isso que tens para me dizer? Não sabes dizer mais nada? Fica tu quieto e deixa-me agir, já que não fazes nada!...”

Agarrei num balde e desatei a lançar fora a água que já se ia acumulando no fundo do barquito. Subitamente, fomos elevados na crista de uma enorme onda e apenas tive tempo de me segurar junto à popa onde o marinheiro se sentara. O estômago quase me saltava da boca.

- “Agora não é tempo para agir!” – reiterou ele com voz firme.

O vento açoitava-nos com uma chuva cortante como lâminas. Coloquei os braços à volta da cabeça para me proteger.

- “Ai sim? Então o que sugeres?” – perguntei em tom sarcástico.

- “Eu é que sei!” – retorquiu ele. Os músculos retesados dos seus braços possantes ergueram a âncora da embarcação, arremessando-a para o fundo das águas, arrastando a corrente atrás de si num ruído ensurdecedor.

- “Agora esperamos! Isto vai passar. Se esperarmos, sempre passa!” – afiançou.

Pela primeira vez, as palavras do lobo do mar pareciam ter alguma lógica.

- “Tenho mais força que esta tempestade” – garantiu ele.

 Revirei os olhos de fastio. O meu ainda débil grau de confiança imediatamente regrediu perante a absurda afirmação.

Os minutos arrastavam-se, pesados e lentos. O diálogo emudeceu quase uma hora.

Impelidas pelo vento, as vagas iam e vinham num rugido assustador.

– “Então, e agora?... Não dizias que eras mais forte que a tempestade?...”

Os olhos do homem brilharam, indiferentes ao tom irónico da minha pergunta.

- “E sou! As tempestades vêm e vão e não tenho que as acalmar a todas”.

- “Então, se não és capaz de o fazer como dizes, o que estás aqui a fazer?”

- “Não estou preocupado com esta tempestade. É só mais uma. Outros já passaram pelo mesmo e fizeram-me as mesmas perguntas que tu”. O vento redobrou de violência.

“Não estou aqui por causa desta tempestade” – rematou o velho marinheiro, segurando-me o rosto frente ao seu com as suas mãos largas e calejadas – “Com ela podes tu bem. Estou aqui para acalmar a tempestade no teu coração!”


Texto: Carlos Pinto Leite