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Carlos Pinto Leite

capitaogancho@gmail.com

SEXO, DINHEIRO E CHOCOLATE

Estranhamente, muito daquilo que é fonte de prazer ou que de alguma forma lhe está associado carrega sobre si uma carga condenatória e proibitiva. A comida, por exemplo. Basta observar com mínima atenção a publicidade nos media e os “catrapázios” de rua para nos depararmos com frases publicitárias onde os conceitos de pecado e tentação estão frequentemente presentes. Desde o iogurte “Pecado dos Anjos” à “tentação irresistível” de um hambúrguer ou pizza até ao “doce pecado” de um gelado ou chocolate. Não há nada a fazer: ou nos contentamos com frugais saladas e sopas ou estamos sujeitos a levar a qualquer momento uma paulada na consciência por saborearmos o prazer proibido.


E o que dizer do sexo? Tempo houve em que era considerado legítimo apenas para fins de procriação, reprimido e, finalmente, transformado em assunto tabú, silenciado nas conversas em público. Considerações à parte sobre o contexto intrínseco ou extrínseco ao casamento e aos relacionamentos hetero e homossexuais, a maior expressão humana de amor e entrega mútua chegou ser considerada quase pecado mortal por se pensar que na base tal acto estariam instintos puramente carnais e animais, nunca supondo que o acto sexual consciente e maduro poderia estar revestido de uma forte espiritualidade, como na realidade está.


Chegou-se ao ponto de deturpar completamente o sentido da afirmação bíblica de que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”, eliminando pura e simplesmente a palavra “amor” do seu início. Em consequência, o dinheiro (e não o amor ao dinheiro) passou a ser a raiz de todos os males. Nesta linha de pensamento, quem possuir recursos financeiros acima da média será invariavelmente catalogado de egoísta, avarento, corrupto ou sem escrúpulos.


O legalismo é uma “coisa” asquerosa e abjeta que, com olhar reprovador mas também subtil criticismo camuflado por mansas palavras, tem o condão de fulminar tudo o que propicie prazer, alegria, bem-estar ou auto-recompensa. Neste âmbito, uma ida ao cinema, o simples uso de maquilhagem, um copo de vinho ou, tão simplesmente, a capacidade de disfrutar os prazeres simples da vida sem culpa, poderão ser altamente reprováveis. O legalista não consegue viver sem uma dose mínima de culpa e complexo e tampouco suporta quem, ao seu redor, viva a vida sem complexos.


Nem o sexo, nem o chocolate ou as riquezas são maus em si mesmos. Depende unicamente do uso que fizermos deles. Serão nocivos se os transformarmos no nosso deus, na nossa única razão de viver, em vez de meios para uma vida saudável.


Crescemos, assim, numa cultura e mentalidade de valores invertidos, onde os mais elementares prazeres da vida (comida ou sexo) passaram a estar associados ao proibido e ao pecado. E tudo o que é de facto santo e virtuoso é conotado com a tristeza, austeridade, pobreza, sofrimento e… ausência de prazer. Tanto assim é que essa ainda é a conotação vulgarmente atribuída a Deus e à Igreja em Portugal. O cidadão português comum não associa Deus à alegria nem a Igreja a celebração festiva, muito pelo contrário.


O legalista tem o poder de desvirtuar tudo aquilo em que toca e de transformar o que é realmente bom em algo condenável e pecaminoso. Deu-se uma inversão total de valores: o prazer ficou associado ao pecado (ou seja, o pecado é o melhor da vida) e o sofrimento à santidade e virtude, o que, convenhamos, não as torna muito atrativas.


Urge desmistificar esse engano e deixar para trás o fardo da culpa e condenação que condiciona pensamentos e atos.


Deus nunca foi um velho amargo, sempre à espreita e desejoso de nos dar uma paulada ao menor deslize. Então, saiba apreciar os dons divinos (no sentido literal da palavra): o sexo, um bom copo de vinho ou o seu chocolate. Se possível, disfrute dos seus recursos. Mas saiba também fazer o uso correto dos mesmos. Liberte-se de culpa e de complexos! Viva a vida. Eu – mea culpa - tento fazer o mesmo.


(Carlos PInto Leite)